Livros são coisinhas absolutamente libertadoras!

(E eu que disse que não ia mais fazer isso – ops! I did it again – estou aqui de novo indicando leituras ao léo/limbo virtual)

Ultimamente por aqui a leitura de um livro sempre abre caminho para outro, na sequência, de carreira. Seja obra para afirmar, complementar, escrachar ou contradizer uma a outra. Vira um conjunto. E cada conjunto de obra serve como terapia para tratar uma carência diferente do meu coreto pessoal. A atual, a de “como artista que precisa se assumir como tal”, foi “tratada” como conto a seguir. E para chegar a um bom resultado a tal terapia, foi uma prescrição de 3 obras.

Eu, insegura artista em eterna crise – “não faço, não entrego, não vendo, pois ainda não está bom”

Esses dias estou eu tentando dominar uma técnica nova de pintura. Tinha dois livros bem antigos ensinando tudim aqui comigo. Assisti mili vezes um curso on-line oferecido pela EDUK onde um professor ensina o passo-a-passo da Aquarela. Pincelada para cá, pincelada para lá eu não estava satisfeita com o resultado do meu trabalho, quando procurando, encontrei um livro bem atual sobre o assunto – Aquarela na Prática – Materiais, Técnicas e Projetos, de Curtis Tappenden. O autor fala de teoria, ensina técnica e é uma publicação deliciosa e linda de ver! Quando no final, quase na última página, diferente das outras fontes consultadas, a autor colocou um questão que me libertou! Disse que o aquarelista pode e deve trabalhar um estilo próprio. Que devemos nos permitir sair dos formalismos e das regras. Que o mundo hoje valida a busca por novas expressões. E posso dizer que três breves parágrafos mudaram um mundo inteiro por aqui! Usei o conselho e ousei o que jamais faria antes: pintei como sabia, exibi como queria, não me culpando pelo não alcance da qualidade almejada e Voilá! Feito! Antes que perfeito. Não tem problema. Matei no peito como deu. E pronto.

Ser Turner na aquarela seria o mesmo que querer ser Michelangelo na Escultura, então, como isso nunca acontecerá mesmo, fazemos o que podemos por hoje. Amanhã melhora, e com a prática, mais ainda. E vambora.

“Roube como um Artista”, sim, mas com conteúdo

Esse episódio me levou a leitura de mais dois livros. Tenho visto um deles ser bastante difundido entre uma geração uns 20 anos mais nova que eu: é o Roube como um Artista, do Austin Kleon. E me animei a “lê-lo-êlo”.

Li numa passada. Bem ao gosto da toada editorial fast-food atual, traz na capa uma chamada bem direta e vendedora: AQUI 10 DICAS SOBRE CRIATIVIDADE, (isca igual das capas das Cosmopolitans e Men’s Health da vida, rá). Mudééérninho na proposta gráfica, bem diagramado (a publicação toda é uma delicinha visual), tem linguagem fácil e é rapidamente digerível. O autor, americano, tem jeitinho de americano nerd. É presença pop multimídia, com canais diversos e diretos abertos a quem vier: Site, Face, Twitter e Insta disponíveis ao alcance de um clique. Também se encontra rapidinho vários vídeos no YouTube com drops e spoilers a respeito das averiguações que ele fez sobre criatividade – do alto de seus pouco mais de 30 anos e aparentemente pouca experiência profissional. Aliás, o livro na verdade é fruto de uma palestra que foi super bem recebida mundo afora, agraciada com muitos views, alçando o autor a palestrante para organizações como o TEDx, SXSW e The Economist, como está descrito na orelha do livro.

E ele é bom sim no que propõe, apesar do meu discurso ”anti-empático” até aqui parecer não concordar com isso.

A obra traz conceitos que liberta quem o lê. Liberta das amarras pesadas do “Não cometerás violação de direitos autorais”. Rasga os rótulos formais e pré-conceitos que cultivamos que limitam a nossa capacidade criativa e produtiva. Ajuda a fazer a roda rodar. Empodera. Impulsiona à ação e instiga excelentes novos hábitos para muitos. Dá ótimos conselhos, (que estão aí pelo ar há séculos, vamos frisar) – como esse, que eu a-m-e-i: Leia sempre. Vá à biblioteca. Há magia em estar rodeado de livros. Perca-se pelas estantes. Leia bibliografias. O negócio não é o livro com o qual você começa, mas o livro ao qual aquele livro te levará. Colecione livros, mesmo que não planeje lê-los no momento. O cineasta John Waters falou: “Nada é mais importante do que uma biblioteca não lida.” 

O jovem autor dialoga lindamente com as gerações Y e Z  (aquelas duas que tem pontos convergentes como: a procura por informação fácil e imediata, taxa em nível hard de conexão virtual – compartilhando, expondo e interagindo, que lidam com um grande fluxo de informação diariamente, e com a alta ansiedade.) No mundo atual, competitivo, líquido, com mais de 7 bilhões de humanos potencialmente criativos, onde a produção artística está pulverizada em mercados e mídias diversas como nunca antes. Onde há um lastro de séculos de história da arte em curso que pesa. Onde tanto já foi feito, e onde criar algo novo e revolucionário em arte (seja em qual campo for) é um trabalho quase impossível à primeira, segunda ou centésima vista. Kleon facilita o lidar dos novos incautos criativos com essa dura realidade com seus 10 Passos. É como se alguém nos dissesse exatamente o que se quer ouvir.

E sim, ah! Eu gostei muito do livro e me fez muito bem ler o que li! Vale ver como ele simplifica, ordena, organiza e coloca as coisas. Recomendo e acho que vale muito a leitura. Mesmo. Eu compraria de novo e acho que ele até entra na minha lista de livros-presentes. Maaaaas na minha singela opinião, de anciã representante da geração X, ele só, por si só, deixa tudo num nível um tanto quanto superficial. E eu preciso de mais.

Agora “Pense como um Artista”, com mais critério e conteúdo relevante

Achei mais! Oba! Para esse “vazio” ser preenchido, sugiro que na sequência, a leitura de um outro livro, que veio provavelmente na esteira de sucesso editorial do primeiro: Pense Como Um Artista, do Will Gompertz. O autor, uma figura, é inglês. Tem aquele jeitinho de inglês empolado. Não tem Site, nem Face ou Insta disponíveis ao alcance de um clique (só tem Twitter). Em proporção bem inferior ao primeiro se encontram vídeos seus no YouTube com drops e spoilers a respeito das averiguações que ele fez sobre arte e criatividade – do alto de seus 51 anos e experiência como Editor de Artes da BBC, ex-diretor de comunicação da Tate Gallery e outras atuações relevantes adicionadas ao currículo. O livro também tem título matador e chamadinha isca na capa para ajudar a vender. Só que aqui, a história muda de ângulo e abordagem. O conteúdo, mais profundo e convencionalmente diagramado, funciona muitas vezes como contraponto ou complemento ao que o primeiro dita. Explica e situa várias frases de efeito citadas pelo autor anterior, em suas configurações e lugares originais dentro da história da arte. Exige concentração e releitura por vezes. Eu faço o tempo todo muitas anotações, e marco inícios e fins de conceituações para me situar melhor na mensagem proposta.

(A leitura dele me levou de volta às conversas com a professora de artes do colegial Lindalva de Lorga, que, quando eu, chateada, reclamava que não conseguia criar meus desenhos como eu queria, e que só “ficava bonito” quando eu copiava, me dizia que todos os grandes artistas começaram copiando, e que mesmo utilizando-se de técnicas como a câmara escura, que seria mais ou menos como “copiar”, eles continuavam sendo artistas, alguns os mais aclamados do mundo. Me remeteu às aulas de história da arte da faculdade, dadas pelo professor Guillermo de La Cruz Coronado, um espanhol tão apaixonado pelo que ensinava, que acabava as aulas ensopado de suor. Me lembrou a minha imaturidade ao cursar uma pós Latu Sensu em Criatividade logo depois da graduação – sim esse curso existiu – onde eu não tinha ainda bagagem para potencializar tudo de ótimo que os professores tinham para passar.)

Nesse livro encontro uma espécie de “tapa-os-buracos” que o anterior deixou. Para citar apenas os mais conhecidos e transformadores artistas e movimentos, conta-se deliciosas histórias sobre Picasso, Caravaggio, Mondrian, Lichtenstein, Rembrandt, Vermeer, David Ogilvy, Bruneleschi e Sócrates. Personas notáveis não só no campo das artes pictóricas, mas passando pela publicidade, arquitetura e filosofia. Tomei contato também alguns contemporâneos que eu, confesso, não conhecia nem obra, nem história. Dei uma atualizada boa no meu repertório.

O autor também instiga o leitor a se apropriar do que o mundo concede lindamente já pronto para produzir, repensar, reinventar. Também empodera e traz conceitos importantes para se trazer para o dia-a-dia. Fala da necessidade nesse mundo atual de estabelecermos relação nova com o conceito de criatividade, e de conceitos como “economia criativa”. Faz pensar. E como já disse, Gompertz (será que de propósito, será que ele roubou?) muitas vezes dá um replay turbinado com mais conteúdo nas mesmas afirmações e conceitos do primeiro, mas com o aspecto positivo de trazer mais informação e perspectiva, que colocam os 10 conselhos do Austin Kléon numa fôrma mais válida, densa e substanciosa.

Esse post aqui é para indicar ambos, para serem lidos e pensados em conjunto.

O que Kléon traz sustenta rapidamente os famintos e incentiva a agir no curto prazo. Mas o que Gompertz traz, nutre e sustenta. Vale a pena se servir dos dois pratos numa mesma refeição. Aí teremos um bom banquete! Eu me fartei.

Como voltei a ser estagiária aos quase 40

Retornando à escola para reaprender a aprender.
Quem me acompanha tem visto que ando bem produtiva nos dois últimos meses. Nessa semana orgulhosamente fechei um ciclo onde tive uma oportunidade pessoal e profissional de imersão no universo de uma escola muito especial que adota como linha mestra a Pedagogia Freinet, a Escola Curumim de Campinas. Isso motivou novos olhares e isso se refletiu em algumas criações, seja em texto ou arte.

De certa forma tem ligação com a experiência que estava em curso por aqui:
Um post reflexivo sobre a infância – “É preciso urgentemente resgatar a própria infância, para sermos pais melhores”/ Tutorial sobre segurança para nossas crianças na web –  “Segurança na Internet – Como configurar restrições no youtube”/ Criação de livro-publicação-exposição de arte interativo sugerindo produção escolar do modelo – “Projeto criativo sobre selfies ridículos e exposições online”/ e criação de ilustração-maquete artesanal inspirada nos projetos vistos em – “Ainda não domino o 3D – a vingança“.

Ao voltar a ser estagiária aos quase 40, retornei aos bancos da escola para reaprender a aprender.


Depois de tantos anos de atuação em outras áreas, por quê se voltar para esse campo?
Quem me conhece dos tempos que lecionei no SENAC, lembra o quanto para mim era gratificante ensinar. Quando eu estava grávida da Júlia em Ribeirão, em 2010, e Campinas era nem sombra de possibilidade de mudança, eu prestei quietinha dois concursos: um para lecionar Artes no Estado, e outro para Informática no SESI. Obtive boas colocações em ambos. No concurso do Estado, entre mais de 230.000 candidatos, onde 52.839 foram selecionados, e inicialmente 10.083 seriam convocados, consegui colocação entre esses 10.083 (mesmo já fazendo 11 anos que estava afastada das teorias da licenciatura). Seria um caminho para uma possível futura atuação, onde uma carga horária de trabalho menor me garantiria mais presença junto à filha recém-chegada. Por ela eu estava disposta a começar tudo de novo. Vislumbrava também que, lecionando talvez um tempo no Estado, ao aprender a ser professora de verdade na diversidade (e grandes dificuldades) do ambiente estadual, eu conseguiria atuar mais adiante naquela escola dos sonhos, onde filhotes estudariam também. A Rosane Malusá, uma pessoa muito querida e referência para mim, me inspirou a pensar em um caminho assim. Mestre na sua área, fluente em 5 línguas e que atuava “apenas” como professora de ginásio na época, ensinando justamente na escola dos filhos.  Mas aí houve a mudança de Ribeirão para Campinas, e para eu ter minha vaga assegurada e ser transferida, eu teria que ter atuado pelo menos um ano na região onde tinha sido aprovada. Como sabe-se, esse plano não vingou. 


As necessidades de entender e refletir profundo sobre educação.
Aqui em Campinas, fui apresentada por uma vizinha à Escola Curumim, em 2011. Eliete era mãe de um pré-adolescente que estudava na escola. Me chamava a atenção a postura do pequeno Maurício. Diferente dos pré-adolescentes que eu via subir e descer a rua juntos diariamente, munidos de celulares último tipo, Maurício ficava à parte desse movimento, e tinha sempre um livro nas mãos. E no olhar uma curiosidade, calma e doçura que me encantavam.

A primeira visita foi quando decidi matricular Júlia com 1 ano e 7 meses na “escolinha”. Fui recebida muito atenciosamente pela coordenadora do Núcleo Infantil, a Mônica, que me apresentou os espaços, as ferramentas de trabalho e um resumo do que é ser uma escola que aplica a pedagogia Freinet como norteadora. Tudo me impressionou muito: os Livros da Vida, as produções das crianças cobrindo todas as paredes da escola, os espaços verdes e amplos, a mistura de faixas etárias no ensino infantil. Tudo visto reforçava o texto escrito do material explicativo entregue: uma pedagogia baseada na autonomia, expressão, cooperação e trabalho. Mas naquele primeiro momento, porém, minha insegurança de mãe de primeira viagem me impediu de colocá-la ali. Eu precisava que meu senso de proteção extrema fosse suprido. A amplitude daqueles espaços e o fato da escola ter também ensino fundamental me assustaram. Juju então foi para outra escola menor. Uma escola maravilhosa que cumpriu lindamente à risca todos os combinados. E Jujus foram muito, muito felizes lá.

Então Juju-filha cresce e “pede” mais algumas coisas: necessidade de desenvolver mais autonomia, se expressar em potencialidades mais particulares, cultivar espírito mais cooperativo e trabalhar com mais mão na massa suas “atividades criativas”, que eu tanto a incentivo desenvolver desde sempre. Juju-mãe também começou a se inteirar e fazer questionamentos profundos sobre os cenários atuais em educação no Brasil. Surge preocupação com a aceleração que exige das crianças hoje responsabilidades e contatos prematuros com questões e conhecimentos para os quais elas ainda não tem maturidade emocional, motora, sensorial e cognitiva plenas para vivenciarem. Senti necessidade de preservar um pouco mais o tempo de Jardim de Infância da minha filha. E para isso, Júlia iniciou nova jornada no ensino infantil da Escola Curumim ano passado.

Começamos a fazer parte de uma proposta concretizada em ações onde o espaço de aprendizagem respeita profundamente as individualidades e os tempos de aprendizagem dos alunos. Um espaço que proporciona cuidado, sem que isso sufoque suas iniciativas e curiosidades de exploração. Onde grandes árvores e vãos livres fazem parte de uma atmosfera de contato com a natureza e a liberdade. Lugar onde vejo crianças e pré-adolescentes fortes, empáticas em seus olhares e atitudes de uns para com os outros. Eles não se atropelam. Eles se percebem e se ajudam verdadeiramente. Tem senso de coletividade. E formar hoje um pré-adolescente que percebe algo além de si mesmo é um trabalho hercúleo e digno de aplausos.

Experienciando Juju inserida nisso plenamente, quis entender melhor como essa proposta se constrói para decidir alguns próximos passos, mais fundamentada. Soma-se ainda curiosidade de mãe, artista e educadora. Sobrou por aqui um tempo necessário para resolver uma questão em pausa. Além de ser um ensaio de retorno ao mercado de forma planejada, há a visão de que um item como esse em meu currículo depois de quase cinco anos sem movimentos mais formais, seria positivamente avaliado.


De volta aos bancos da escola.
Através de um canal generoso aberto pela instituição, após fazer um curso introdutório, passei a frequentar desde maio, como estagiária, as aulas de Arte nas turmas de 6º a 9º anos, dadas pela Professora Audrey. Voltei para o banco da escola e aprendi como aluna nova, lições sobre um mundo desconhecido. Audrey é uma profissional fantástica, com experiência de 16 anos de cadeira só na Curumim e um mundo para compartilhar. Agradeço imenso a ela o tempo e toda a paciência que dedicou às minhas questões. Acompanhei as aulas, o dia a dia, a preparação para um evento emblemático da instituição e estudei in loco a pedagogia.

Compreendendo a teoria na prática, me encantei mais ainda com o que vi do lado de dentro. Resgatei minha própria trajetória escolar nas dinâmicas presenciadas em sala de aula. Relembrei os estudos da Licenciatura em Artes. Revi alguns mometos do primeiro estágio realizado anteriormente, obrigatório para conclusão da faculdade, feito junto de outra professora de artes que deixou marcas profundas na minha história, Dona Lindalva de Lorga. Me encantei também com as crianças!

Agora, com uma percepção madura e com olhar também de mãe que quer o melhor dos mundos para seu filho, me senti feliz tateando terrenos tão férteis. Entendo hoje melhor o universo “do aprender a aprender” proposto, através dessa visão inovadora, que na verdade existe fundamentada há mais de 40 anos. Nascida da experiência de um educador chamado Célestin Freinet, ao conhecer sua trajetória e como ele “criou” a pedagogia batizada com seu nome, fica muito claro que teoria nascida e embasada a partir da prática, tem uma força vital diferenciada.


Freinet, uma pedagogia que desperta seres melhores para o mundo.
desenhoBXAprendi que a pedagogia Freinet promove um alinhamento entre os saberes científicos, a arte e a cultura. Percebi o quanto esse alinhamento vem de encontro ao que entendo como uma mistura de elementos ideal na formação de base que desejo para a minha criança. Entendi a importância de que ela receba sim, o conhecimento formal, imprescindivelmente. Mas que o contato com a arte e sua cultura, a formará para uma aplicação fértil e consciente de tudo de bom que esse tal de conhecimento – que é poder -proporciona. Compreendi que a sua essência da criança, fomentada pelo estímulo de sua capacidade criadora não se perderá. E que se espera que ela, sob esses estímulos, queira e ame ler mas não só as letras, mas o mundo inteiro. E que veja sentido e entenda seu papel a desempenhar nisso.

A criança é provocada para ser capaz de buscar o conhecimento por iniciativa própria. Sendo todo essa instigação do desejo de saber, conhecer e explorar feita tão fortemente, será facilitado o caminho percorrido entre o sonhar até o realizar. O grande movimento feito em torno da leitura, dos livros e produção de texto assegura que o língua na sua forma viva e o seu uso, sua produção, seja algo tão presente na vida da criança como o brincar e o jogar. A criança que aprende a gostar de aprender, a ler e a escrever prazerosamente, instrumentalizada estará para se tornar um adulto capacitado a fazer qualquer coisa que queira. A transitar ilimitado. Lindamente!

No campo emocional, as crianças desenvolvem uma profunda capacidade de demonstrar empatia pelo outro. As práticas que respeitam ritmos próprios e capacidades individuais diferentes fomentam isso. A postura inclusiva, de absorver crianças portadoras de deficiências e inseri-las realmente ao convívio diário escolar prepara o olhar e as atitudes dos mais privilegiados para o cuidado, o amparo, a aceitação, a cooperação e o entendimento das diferenças.

A proposta de que a criança seja protagonista do próprio aprendizado coloca o professor em um papel que exige dinamismo. É preciso ser um mediador firme, colaborativo e atento . O corpo docente trabalha com o novo diariamente e isso precisa agregar profissionais comprometidos com a não-comodidade e o não-conteudismo. Os movimentos são constantes e um dia nunca será igual ao outro. Como é a vida. É preciso preparo e disposição para lidar com isso. E eles tem.

Esse cenário se firma com a utilização, entre outras, de ferramentas como a criação de livros coletivos e individuais, como os Livros da Vida e as Publicações dos Projetos em Álbuns. As Produções Artísticas em suportes variados, de cunho coletivo e individual. O fomento da produção do Texto Livre. Uso do chamado Jornal de Parede, onde democraticamente se expõe e discute o que “Eu felicito”, “Eu Critico”, “Eu Proponho”, “Eu pergunto”. A Roda de Conversa. Os Ateliês e Projetos de Pesquisa orientada e os Ateliês de Trabalhos manuais e técnicos. As Aulas-passeio. Os Planos de Trabalho anuais estabelecidos conforme cada necessidade de ação. A definição clara e constante dos processos e metas desde o princípio de cada ação em sala de aula. O desenvolvimento das capacidades de Organização, Autoavaliação e Autocorreção orientados. Valorização do sentido do Trabalho. E muito respeito com as dificuldades e limitações do outro.

Essas ferramentas, de modo geral, se propõem a desenvolver as seguintes questões:

1 – Permitir e fomentar a autoexpressão plena em todas as áreas possíveis: verbal, gestual, plástica, musical, corporal e emocional.

2 – Valorizar, facilitar e instrumentalizar o aluno para que ele saiba se comunicar com o mundo de forma fluída, autônoma e eficaz. Capacitar para transmitir, argumentar, se fazer exprimir e entender plenamente.

3 – Aprofundamento no que faz sentido para a criança e seu universo. Além dos conteúdos formais, a grade é flexível de forma a trazer ao dia a dia os assuntos na ordem que os interesses surgem, individual e coletivamente. As crianças agem de forma a criar, agir e conhecer, tateando experimentalmente o mundo.

4 – Favorecimento de uma atitude mais autônoma da criança. Postura que mostra compreensão do seu trânsito e interação positiva com o mundo. Colaboratividade, empatia, capacidade e necessidade de autogerenciamento e autoavaliação. Entendimento de regras e limites. Formação de seres respeitosos para com o outro e capazes de exigirem respeito do mundo.

5 – É ensinado que o trabalho tem um caráter extremamente valoroso. A criança entende que ele é parte essencial da vida, e que através dele se dá a conquista e a aquisição plena do conhecimento. Que ele deve ser realizado de forma positiva, motivante e construtiva. Complementar e nivelado em relação produção intelectual. Nunca como um fardo.

É impossível utilizar poucas linhas para descrever práticas e processos de uma pedagogia que se utiliza de tantos recursos fantásticos para trabalhar de forma integral o desenvolvimento dos alunos. Aqui foi o meu resumo pessoal breve de uma experiência curta, tanto como observadora, tanto como mãe de uma criança que se desenvolve sob essa batuta. Nos dias de hoje, onde as crianças vivem em um mundo tão restritivo, em ambientes fechados sem contato com a natureza e muito cedo são imersas em realidades tão duras, pensar em proporcionar um espaço de aprendizado como o oferecido pela pedagogia Freinet é oferecer a chance deles se resgatarem em sua essência criativa e realizadora sem limites, que o ser humano tem naturalmente dentro de si e que precisa ser urgentemente mais cultivado. É preciso mais asas e menos encarceramentos.


Agradecimentos
Gratidão à coordenação, professores e equipe toda pela abertura e acolhida, disposição em compartilharem tanto e pelos despertares que motivaram em mim nesses dois meses. Aprendi muito. No final, mais que um item de atualização adicionado ao currículo, tenho mais riqueza adicionada à vida.
Muito obrigada pela oportunidade, Escola Curumim! Foi transformador e enriquecedor.

 



Abaixo, para finalizar, um texto nascido do encantamento com tudo visto durante a preparação de escola para a Festa Junina celebrada semana passada.  Acompanhar esse trabalho foi emocionante. Me despertou para o tamanho das potencialidades das nossas crianças, que bem direcionadas são capazes de realizar coisas grandiosas, mesmo.

 

Festa Junina Curumim.
Feita com muitas mãos.

Um olhar curioso participa desde o início do intenso processo de pesquisa, discussão e escolha que envolve uma escola inteira para a definição de um tema para a festa. Enxerga o interesse e a ansiedade de todos em encontrar o que será mais pulsante, interessante e produtivo. Vê a expectativa presente ao anúncio, e a alegria sentida pelos alunos de que sim! O melhor tema foi encontrado! Será uma linda festa!

Um olhar curioso presencia como são definidas as tarefas e responsabilidades para que o trabalho se inicie. E vê quando começam os trabalhos. E percebe o quanto as mãos e corações de todos estão indo à obra! Grande obra por fazer!

Um olhar curioso encontra uma escola inteira trabalhando lindamente um projeto de integração coletiva. Vê crianças concentradas e atentas realizando coisas que muita gente grande nunca antes fez em toda uma vida escolar. De forma colaborativa e surpreendentemente ordenada atravessam juntas as etapas de cada tarefa. A mesma mãozinha que na primeira hora misturou tinta e pintou painel, na segunda hora projeta novo desenho. Segue organizando espaços. Carrega papel gigante para secagem ali do outro lado do pátio e depois na última hora finaliza o dia guardando as ferramentas todas utilizadas.

Um olhar curioso se encanta com esse movimento e se alegra em participar disso. Nutrida aqui está a certeza que a educação proposta por vocês se faz presente em tudo que suas crianças realizam. E como lindamente realizam!

Meu olhar se expande e se privilegia ao assistir essa ação. Lindeza ver tudo tomar forma. Muito obrigada pela oportunidade.

Parabéns Curumim!

 

Juliana Cassab/ Maio-Junho de 2016

 

 

 

 

 

Sobre Selfies ridículos e Exposições Online

SURGE UMA IDEIA MALUCA PARA UM ÁLBUM (SIMPLES E MUITO PESSOAL) DE FOTOS

Noite dessas me deu saudade de mim, da Juliana de uns 10 anos atrás. Um HD de backup resolveu o caso. Muitas fotos revistas, entre elas a de uma viagem inesquecível, e em especial, as de uma tarde especificamente. Primeiro foi, “vou fazer um álbum disso”. Juntar bonitinho e imprimir. Dar vida à memória que se perderá se eu não o fizer. Um projeto simples, diagramado em duas horas, onde o que vale é o registro, não se a foto está desfocada, escura e bem ruim. Não ia nem dar um Levels/Sharpen em lote para uma melhoradinha, ia ser jogo rápido, o que estava valendo era a lembrança resgatada.

MAS AÍ DÁ VONTADE DE FAZER MAIS INTERESSANTE, VIRA FOTOLIVRO

Bão, acabei abrindo no outro dia o arquivo e incrementando com uns textinhos. Hoje eu não consigo mais juntar foto sem escrever nem que seja um tiquim. E aí saiu mais um projeto meu de fotolivro pessoal. Mas pessoal mesmo, que eu não ia ter coragem de mostrar para ninguém. Inda mais tão monotemático e desinteressante para a maioria dos outros do mundo. Um livro de Selfies, credo! Com minha cara multiplicada umas 40X, além de escancarado em todas uma bela espinha sobreposta ao lábio. Eu que nem foto minha colocava no Face até meses atrás.
Feito. É só pra mim mesma. E ficou bem legal!

E ENTÃO, MISTURA COM PROJETO EDUCATIVO E VIRA UMA PUBLICAÇÃO VIRTUAL

Na semana em que mergulhei nesse “trabalho” os alunos do nono da escola onde estou estagiando iriam fazer uma aula-passeio na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Estavam a mil. A excitação da meninada pela viagem que aconteceria fez cócegas na criatividade aqui. Aí, viajei na deles, e pensei sobre algo a fazer com a temática do meu projeto aplicado à sala de aula.
Já pensou um registro de uma aula-passeio a um museu transformado em livro?
A meninada se divertindo fazendo seus Selfies em frente às obras favoritas para depois fazer trabalho de edição das imagens, montagem de livro (impresso ou interativo), anotações de impressões pessoais, interatividade com acesso ampliado a informações sobre a obra e até a inserção de um videozinho de despedida da experiência?
Pus mãos novamente sobre minha “obra”, para tentar fazer uma publicação interativa. Fucei recursos novos. E saiu um exemplo de projetinho interessante para desenvolver com a molecada, juntando Português, Arte, História e Informática. Tudo bem, esbarrando em realidades tristes, não temos laboratórios de informática com iMacs e pacotes Adobe instalados, mas temos PCs e grátis Gimp, Scribus e Inkspace. Mas, quem sabe?

VAMOS PASSEAR? CLICA NA IMAGEM PARA NAVEGAR PELO MUSEU COMIGO. OS RETÂNGULOS SOBRE AS FOTOS LEVAM À OBRA ORIGINAL NO SITE DO MUSEU.

mockup Moma e Eu BX

Agora, te convido para acompanhar essa visita comigo! Pega na minha mão, passeie e se divirta. É um fotolivro com fotos da minha primeira visita a um museu de arte internacional, aos 30 anos. Por favor, não ria das minhas caras. Não me recrimine por eu expor um material onde só tem foto minha de mim mesma na frente de obra dos outros, maioria gente já morta e enterrada. A princípio era só um presente-livro de mim para mim, para eu celebrar alegria pessoal, mesmo esdrúxula e ridícula aos olhos alheios. Encontre em algumas fotos um retângulo com o nome do pintor sobre ela, ali tem uma linkagem direta da obra com o site do próprio MoMA. Clique e a veja ampliada, e tenha mais informações sobre o trabalho. No final, um self-videozinho para fechar a apresentação, mostrando o quanto estava forte a minha babação.

Pode até estar mesmo meio ridículo, viu gente. E pensando bem, é, está.
Sim, todo Selfie é ridículo. Imagine um montão deles.
Mas ok. Os que amam arte me perdoarão. E obrigada pela companhia!

Até a próxima arte!