Carta a uma jovem diretora de arte. Sobre escolhas, perdas e ganhos.

“ (…) Acontece que eu vim pra cá, enfiei a cara e passei por altos e baixos em busca de um sucesso profissional, que hoje começo a pensar que ter sucesso é viver com quem se ama, formar uma família com amor e ter tempo para ir a uma apresentação de dia das mães na escola…”

Carta a uma jovem diretora de arte. Sobre escolhas, perdas e ganhos.

Querida, lá vai minha visão hoje sobre isso.
Eu comecei a trabalhar com 14 anos, e já tinha vivido muita coisa profissionalmente antes de “virar” diretora de arte, aos 25. Como não cursei publicidade, nunca sonhei em fazer parte da turminha top ganhadora do Leão “Cannino” ou tive necessidade daquelas esticadas comuns no meio para alimentar, amortecer e entorpecer as veias criativas diariamente. O meu alcance de topo de cadeia seria a Bienal de Veneza, rs. Vim das artes, e a publicidade foi a forma que encontrei de ganhar a vida desenhando. Tinha trabalhado dos 15 aos 23 no McDonald´s e isso me forjou numa forma profissional rígida e muito disciplinada. Nada que combinasse em qualquer aspecto com o mundo da criação em publicidade. Eu era uma estranha no ninho. Muito estranha. Mas eu queria muito estar lá, me enfiei nele, também passei por altos e baixos e fiz umas coisas bem boas, acredito eu.

Em 2003 quando entrei firme no mercado, em Ribeirão Preto ainda se usava CorelDraw, comprar foto em banco de imagem era caríssimo e saber ilustrar na unha, um diferencial para o diretor de arte. Como eu desenhava, fazia bons trabalhos utilizando a ilustração. Minha “veia criativa” na publicidade nunca foi o das sacadinhas fantásticas praqueles anúncios matadores, mas sim um trabalho focado em fazer bonito, minucioso e dentro dos prazos. Simples. E para atender aos prazos eu ficava o tempo que fosse necessário, virava hora de almoço e meia noite que fosse, saindo da agência para pegar o carro sozinha na rua deserta com a chave e o xx na mão. Meu banco de horas era um banco rico assim, tipo suíço, e minha vida pessoal uma caca. Eu era também a chata da turma, muito chata. E essa é uma versão breve da historinha de como consegui meu lugarzinho ao sol nessa área.

Um dia a minha diretora de criação me chamou e me disse que eu deveria ir mais devagar, que da forma como eu atuava, ia chegar uma hora onde eu não ia querer mais. Que eu tinha que pensar na minha família. Isso eu devia ter uns 29 anos. Queria eu hoje, na época ter entendido melhor o que ela estava tentando me dizer.
Então outro dia chegou um diretor de arte mais novo. O menino fez uma campanha linda para uma conta que normalmente eu atendia, utilizando uma série de arabescos e elementos, que se fossem para eu fazer da forma convencional, teriam demorado meio dia pra eu criar/desenhar no papel e mais um dia inteiro só para eu traçar no Córel. Naquele momento, o banco de imagem fast-food passava a vender aquele arquivo vetorial fantástico a preço de banana, ou mesmo grátis, a um toque de download com senha facilmente emprestada de um coleguinha esperto.
Outro dia chegou outro diretor de arte mais novo ainda. Dominava o Illustrator que era uma beleza e ainda arranhava o 3D.
Por que cargas não nasci redatora, cujas habilidades não dependem do domínio do software do momento? A palavra é escrita tanto em com Corel quanto com 3D, e redator sempre acaba indo para casa mais cedo…
E eu vi que aos 31, ou eu ia fazer uns cursos de atualização, ou crescia pra diretora da criação ou tava para me afogar em breve na água da maré nova e irrefreável que vinha.

Bão, diretora da criação não ia rolar porque eu não tinha liderança nenhuma junto à tchurma, nem auto-controle na hora do aperto e rapidez para acompanhar a maré louca desse oceano turbulento. Minhas melhores qualificações eram outras e não atendiam aquela demanda especificamente.
Sobre aquele conselho, até então e ainda um tempo adiante, procurava nem pensar a respeito. Inventei viagem, pós-graduação e curso de inglês no exterior para fazer antes de me “enterrar” no papel de mãe, que na época para mim era um fim, e não um meio de uma vida. E foi chegando os 32 anos na porta, e dali a pouco faria 35 e a idade limite para eu ser mãe de forma “segura” ia pras cucuias. E só então, quando vi que o relógio biológico ia berrar, e dei sinal verde para o filho vir. Eu não ia poder mais fazer hora extra. Como as meninas do atendimento, a hora que badalassem as 5:30 da tarde, tendo saído ou não a aprovação do anúncio eu ia ter que sair para ir buscar a cria na escolinha, sem choro nem vela. Como eu estava longe da família, não ia ter avó nem tia para dar aquela santa ajuda. E eu entendia melhor ali, porque há tão poucas meninas atuando em direção de arte.

A Jú nasceu em outubro de 2010. Eu retornaria ao trabalho 6 meses depois, e em tese, as coisas se acomodariam e a vida seguiria seu curso. A família então passaria a cumprir o papel que deveria ser dela desde sempre e as coisas ocupariam seus devidos lugares proporcionais na minha vida.
Quatro meses depois da Jú nascer o Rodolfo foi transferido de Ribeirão para Campinas. E deixei para trás tudo arduamente construído em Ribeirão a custa de muita dedicação. Tudo ficou lá, absolutamente tudo. Não deu para carregar nada. Até os arquivos backupeados para eu complementar meu portifa com os últimos trabalhos se foram com um pau geral de um HD dozinferno. E o acerto financeiro de 7 anos de agência se foi em menos de 1 ano, com as demandas vindas com a bebê e com a mudança para uma cidade tão mais cara.

A maternidade me virou do avesso. Mudou profundamente meus conceitos de mundo. Hoje tenho certeza que deveria ter escutado aquele conselho. Que eu deveria ter pensado mais na minha família e na qualidade do meu tempo. E eu, que decidi que queria mais que tudo ainda ter sim um segundo filho – que foi e tem sido a experiência de vida mais fantástica que já vivi – chego em outubro aos 38. Esse ano perdi, ainda bem no início, a tão planejada gravidez. Anjinho decidiu não ficar. Foi uma tristeza imensa de viver. Hoje tenho muitos medos e dúvidas. Se vou ser capaz de trazer essa segunda criança para vida da minha família. Se dará tempo em todos os sentidos. E isso me fez pensar muito, muito mesmo em decisões adiadas, perdas e ganhos.

Beijo no seu coração.
Juliana.


Esclarecimento posterior à publicação.
Pessoal, essa é sim uma carta de resposta a uma jovem diretora de arte, enviada a mim no dia anterior da publicação dessa resposta/post. Uma querida. Enviei a ela primeiro a resposta e antes de trazer a público, dei Del e Control+Z no último parágrafão aí de cima um montão de vezes, mas acabei deixando essa parte TÃOTÃOTÃO pessoal, porque é na real o que dá o devido peso e relevância a todo o argumento. Esse assunto é tabu brabo, sabemos! Qdo abrimos, falamos com mais naturalidade dele, entendemos e passamos a saber que é um fato que faz parte da vida de muitas mulheres, e que acontece estatisticamente com muito mais frequência do que imaginamos. É que disso nunca se fala, inda mais num blog aberto. Eu falei, ixi, danei, rsrs!!! Sorry!
Tem gente achando que é uma carta de auto-projeção/piedade de mim para mim mesma (ok, tem um pouco disso tbém), mas originalmente não é, rsrs. É uma carta de verdade, para uma outra pessoa de verdade. 🙂

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3 pensamentos sobre “Carta a uma jovem diretora de arte. Sobre escolhas, perdas e ganhos.

  1. Oi. O que dizer!! Apesar de qualquer medo ou dúvida. Você fez muita coisa importante pra você, coisas que sempre quis fazer, infelizmente não conseguimos fazer tudo. Mas tentamos. Tenho muito orgulho de ser sua irmã e você sabe disso. E qualquer decisão que tome, estarei sempre aqui. Beijo te amo muito muito!!!!! E você é a melhor mãe que a Júlia, minha sobrinha amada, poderia ter.

  2. Ah, Ju, quanta história! E que maneira linda, inteligente e reflexiva de colocar isso em palavras. Se é para fazermos história que estamos aqui, os percalços fazem parte. E a tua história merece desfechos felizes!!! Bju!

    • Lary querida!!! Muito obrigada pela sua atenção e carinho.
      Vc também é dona de uma história linda e de uma coragem e capacidades imensas pra fazer dos percalços apoio para subida! E qtos percalços tivemos né?! Me identifico com vc, e vamos lá, acompanhando e torcendo mutuamente uma pela outra. Que venham nossas batalhas diária pela busca da felicidade. Somos vitoriosas, e estamos alcançando o melhor!!! Nós quatro, inclusive: Lanila e Fernanda também. Muito bom ter vcs perto de alguma forma. Bjujuuuuuuu.

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