Conversa de publicitário para boi dormir

Esse post é uma conversa entre eu e um ex-parceiro de trabalho, o Dú, com quem duplei em agência por um ano, lá nos idos de 2006. Na época, eu Diretora de Arte não ainda Sênior, mas já meio calejada, e ele Redator, Iniciante.

Reencontrei ele recentemente por essas bandas Facebookianas e mandei um texto que escrevi um tempo depois de ter saído da área pra ele – “Aos colegas publicitários e a quem mais interessar” (veja aqui), como pedido de desculpas por ter infernizado tanto a vida do pobre mancebo.

Eu estava numa fase pessoal bem complicada e reflexiva, e dele recebi essa super resposta.

Esse post gerou outro filhote, na época, bem pesado, bem duro, e esse papo com o Dú tá na gaveta aqui faz quase um ano. Receber esse texto dele falando coisas de mim, naquele momento, me fez pensar muito, muito sobre papéis, escolhas e mudanças. E ser chamada de chata e metódica nunca foi tão legal! Valeu Dú, mais que uns 5 anos de terapia! Adorei nosso papo!

Em azul, abaixo de cada consideração do Dú, minha réplica.

 

 

A lição é mais nítida pra quem aprende. (Carta de agradecimento a minha primeira dupla)

Postado originalmente em July 29, 2014 por ducaducaduca em http://bondedochorume.wordpress.com/

Comecei no mercado pra valer em 2006. Depois de um ano de estágios e tcc, eu entrava pela porta da frente de uma das maiores agências de Ribeirão e do interior, graças a boa vontade da minha diretora de criação na época, que escolheu apostar em um novato verde e sem vícios, com algum hipotético potencial, em detrimento de candidatos mais rodados.
Redatores, seres etéreos dotados do dom de criar coisas encantadoras e surpreendentes, organizadores do caos da informação, com um excelente nível de cultura geral e dotados de conhecimento formal das letras – ah essas regras infinitas da marvada língua portuguesa – (porque são poucas agências que arcam também com um revisor). Esses meninos e meninas são artigos de altíssimo luxo e escassez no mercado. Às vezes tem um ou o outro atributo aí descrito, e vc tinha todos. Se hoje imagino que esteja impossível achar esse profissional, é provável que em 2006 o quadro era apenas um pouco menos desesperador. Mas, se tá chegando um na roda, cata ele rápido, rs!

 

O interior tem suas particularidades. Com 6 meses de casa, eu já tinha botado campanha na rua, emplacado dois filmes, e já atendia a conta de uma concessionária de importados, job dos sonhos que nego passa a vida esperando cair no colo. E por conta dessas características que só o interior tem, queimam-se etapas. Em um ano eu pulei de estagiário para profissional carregado de responsabilidades. Eu acredito piamente que esse processo deve acontecer, mas em um espaço de tempo maior. Se aprende muito passando por esse corredor polonês, mas também se perdem outras coisas que são fundamentais na formação de um jovem profissional.
A gente ficava quem nem cachorroloco tendo ataque psicótico em dia de mudança a cada trabalho grande que chegava, e chegava! Mesmo com a tutoria da Patricia, vc era ainda carne macia demais pra leão devorar, judiação. Tinha dó de vc. E de mim, que era devorada junto a cada job, rsrsrs.

 

A faculdade não ensina sobre senso de merecimento, gestão de auto-conflito, visão de hierarquias invisíveis, entendimento do que é de fato esse mercado. Quem dá essas aulas, penosas, são as próprias agências. E aí, os jovens profissionais ficam a mercê da sorte de encontrar no ambiente de trabalho capaz de transmitir isso, com profissionais que possam mostrar, na paciência ou na porrada, como é que as coisas são de fato.
Eu tive a Juliana Cassab. Não era diretora de criação, nem exercia nenhuma liderança na equipe. Era minha dupla. Uma profissional com uma escola totalmente diferente da minha, focada, metódica, que por vezes tratava o brainstorm como um exercício espartano.(1) Espartano – (…) abstenção de conforto e luxo, autodisciplina, severidade de maneiras, (…) Austero, sóbrio. (fonte Michaelis) Eu saía das rotinas condescendentes do estágio e faculdade, pra cair no ritmo de alguém que tinha hora pra tudo. Todos os outros diretores de arte eram meus amigos e bebiam cerveja comigo. Só a Jú que fazia a minha vida ser mais adulta e sisuda.
Dú, eu comecei a trabalhar com 14 anos, e já tinha vivido essa fase de aprender a ser Pro uns 15 anos antes de vc. E numa escola bem diferente mesmo, que pouco combinava com a realidade publicitária e suas demandas. Faltou muito senso de adaptação da minha parte, para muitas coisas.  Eu nem cursei publicidade, não sonhava com Leões Cannino, rsrsrs. Meu topo da cadeia seria a Bienal de Veneza.
Como eu disse no texto que te mandei e vc também, I should had kept myself calm e buscado entender o environment and atmosphere onde eu tava metida. E curtir um pouquinho né. Com certeza tudo teria sido muito mais leve se eu tivesse assumido diferentes posturas. Paciência. Foi-se. Quem sabe hora dessas não tenho a chance de resgatar algumas dessas coisas :)…

 

Eu era a antítese dela. Tinha a angústia de querer mostrar serviço, gastava todo o tempo que não tinha pra tentar chegar na melhor ideia (que quase nunca era a melhor). Ela tinha a angústia de fazer a máquina girar, entregar o melhor dentro da equação qualidadeXtempo disponível.
Você era júnior tendo que atuar como sênior. E eu não facilitava em nada a sua vida, infelizmente.

 

Sempre era sofrido. Sempre ela no meu calcanhar: vamos conversar, Du? Dá um tempinho pra mim Ju, quando eu tiver eu te chamo. O trabalho sempre saía. Mas era sempre desgastante.
Só hoje entendo meu papel nesse sistema – se eu tivesse noção que os chatos são necessários sim, talvez ainda estivesse nele, mas mais caaaalma. Ser a chata off group é algo que massacra, todo bicho do mato precisa de carinho. Um dia me chamaram e me disseram que eu deveria ir mais devagar, mesmo. Que da forma como eu atuava, ia chegar uma hora onde eu não ia querer mais. E foi o que aconteceu.
Ninguém nunca explica porque você manda a pasta e às vezes, mesmo apresentando o supra-sumo da criatividade, não entra. Bão, entenda-se que às vezes, o quadro ultra-criativo da agência tá completo, e ela precisa mesmo naquele momento do profissional metódico que vai entregar com perfeição o catalogo técnico complicadíssimo em detalhes e infos. Uma comunicação rígida, que vende algo reto, direcionadamente e que não tem nada haver com a alta esfera da criação para vender/ comunicar sonhos de consumo, que precisa tanto dessa fantasia sacada criativa tão valorizada. Esse material não ganha prêmio, não projeta a agência pro mercado. Fica meio que no limbo. Mas ajuda a pagar parte das contas. E para mim, era essa parte que me pertencia naquele latifúndio, não é de se admirar que eu também fosse rígida, reta, pregada no chão. Hoje minha pegada criativa tem cor e alegria acrescentadas na minha produção. Que bom as coisas mudam né?!

 

Até que depois de um ano de agência, eu recebi a demissão mais linda da minha vida. Aquela que pontua onde estão seus erros, te esfrega na cara que você tem muito o que aprender, e te bota pela primeira vez no eixo da humildade.

Mudei pra capital, passei 7 anos ininterruptos em agências. Pequenas médias e grandes. Foi um recomeço, onde vi que as coisas que eu tinha no interior demorariam muito mais para serem conquistadas.Durante esse tempo, eu descobri que não basta ser bom profissional para se manter empregado. Se a agência troca de diretor de criação da noite para o dia, você tem que rezar pra que o novo líder que chega não traga junto uma equipe inteira da confiança dele, o que provavelmente vai te colocar na rua sem nenhuma chance de mostrar o quanto você pode ser útil. Não adianta ser bom. Se você não tem uma baita reputação, tudo é mais difícil. Se você tem uma má reputação, ela chegará nas agências muito antes da sua pasta.

Muito do que aprendi em São Paulo foram lições revividas, em maior ou menor intensidade, do que eu passei nos primeiros meses de carreira ao lado da Jú. Tão importante quanto criar bem é criar rápido, tão importante ter talento é saber jogar em time. Não basta amar a propaganda, é preciso cultuar seu código de ética velado. Quanto antes aprende-se tudo isso, maior as chances de se manter nesse meio sem enlouquecer.
Não só em propaganda. Em tudo, em qualquer campo profissional as coisas são assim, códigos, jogos, rotinas, cobranças. A realidade engole, mastiga, e tritura a idealização, se a gente deixar. Bem vindo ao mundo real. Mas por favor, sobrevivamos. “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás.” 

 

Quase 8 anos depois eu voltei a mesma agência. Agora a Ju não está mais lá. Escolheu trilhar outros caminhos menos insanos e mais sustentáveis.
Sinceramente, Dú, hoje vejo que a insanidade reina em qualquer terreno. A gente nunca está satisfeito e qualquer caminho tem suas insustentabilidades.

 

Agora eu sou o veterano chato. E não é porque voltei com outra visão das coisas. Mas porque dei a sorte de entender cedo a relação entre as cobranças da Ju e a minha demissão.
Du, sinceramente, não me lembro o estopim da sua demissão. Mas bão, grazadeus sabemos não foi por falta de talento, tanto que tu taí again. Bingo!

 

Propaganda é um tesão pra quem quer viver da riqueza da própria imaginação. Mas também é um metiê massacrante pra quem não sabe a hora de abaixar a crista e colocar a afetação no bolso, não entende que o negócio na essência é puro negócio, que pede gente com senso de dono e disposta a se frustrar diariamente.
Dú, propaganda é o aquilo que fica por último, né?!  Aquilo com que a empresa sabe que precisa lidar, pagar, fazer, mas posterga, sem reconhecer ou mesmo entender muitas vezes sua necessidade. Por não ser tangível, essa coisa toda e tudo nóis, somos muitas vezes imperceptíveis. Como somos tolos com tantos dramas e ataques cometidos, nos tirando a saúde e os bons humores, porque pediram um título menos viajante e uma arte mais atrelada a realidade porque o público-alvo não tem capacidade de abstrair. Somos mais um pontinho na cadeia produtiva, na rede, e as pessoas na maioria não conhecem e nem fazem ideia da quantidade de envolvidos, do tamanho da máquina necessária, noites insones e suor vertidos para se chegar a um  filminho de 15 segundos. Demora para quem tá nisso entender essa verdade, e deixar os apegos efusivos às suas cria-ções. Passar a agir de forma mais prática, com o tal senso de dono, às vezes pode ser o melhor passo para melhor manutenção da nossa saúde mental. 

 

O que eu vejo hoje é uma moçada muito a fim de mostrar seus talentos, mas pouco afim de ouvir sobre como convergir habilidades artísticas em profissionalismo. Com todo o risco de soar conservador e parcial eu afirmo: a juventude tá perdendo a percepção de valor sobre esse negócio. Na faculdade, eu passava em frente a minha atual agência, e pensava o quanto seria incrível trabalhar lá um dia. Hoje estagiário chega de carro zero, querendo estabilidade e botando defeito em tudo. E aí, aquele negócio de pular etapas, só contribui pra que a futura geração de profissionais seja cada vez mais mal acostumada e incapaz de lidar com a pressão quando ela vem.

Eu tive uma chata no meu caminho. E hoje eu continuo acreditando que os chatos são imprescindíveis, mas infelizmente estão em extinção.
Rá! 🙂

 

A Ju era tão dura com ela como era com seus colegas de trabalho. Talvez por isso tenha buscado um caminho onde as variáveis como prazo e parceiros de trabalho fossem menos complexas de se administrar. Natural. Talvez tenha faltado um gole de “Keep calm and drink some coffee”. O que é uma pena.
Rú! 😦

 

Infelizmente a loucura só piorou Ju. Tudo é cada vez mais industrial. Menos fluido como deveria ser. A pauta nos meios especializados da gringa hoje é “why the creative talents leaving their agencies?”
Du, eu tive dentro de uma agência da gringa em 2008, 5 semanas em Toronto. E não cheguei lá por minha criatividade infinita para propaganda, e sim pela profissional chata que era. Os caras atendiam Canon e ADP. Fiquei tarde inteira procurando foto royalty free para Canon anunciar flyer varejo/promocional de câmera. Mandavam aumentar a logo na peça sim, e atendimento se degladiava com diretor de arte, vi “pau brabo” rolando. TUDO IGUAL nesse sentido. A diferença que senti foi um senso e um sistema de compromisso, comprometimento e confiança reais, absolutamente maiores entre público interno X como o negócio propaganda funciona X como o cliente confia na agência e nas soluções que ela lhe apresenta. Ou seja, isso é negócio, funciona e para funcionar é sistematizado. A realidade engole, coloca na fôrma, e num mundo louco como o de hoje (economia, mercado, política, consumo, lucro, sustentabilidade, etc, etc, etc) isso com certeza deve estar acontecendo cada vez mais.
Não seria talvez por isso os criativos estão saindo das agências? Será que não deveriam continuar na lida produtiva na agência, e buscar realização pessoal criativa na arte, que tal, heim? Eu fazia isso lembra? Criar para si, expor e publicar onde for possível, sem ter que passar por crivo de diretor, atendimento, cliente. Para mim ajudou bastante a equilibrar minhas frustrações.
Porque esse seu blog tá abandonado há quase um ano?

 

Enfim, cabe a mim agradecer, compreender e passar adiante as suas lições. Obrigado por tudo Ju. Desejo que seja menos severa com você. Apenas com você. A gente se encontra numa esquina dessas aí.
Eu que agradeço Du! Muito mesmo!

Abraço,
Outro, quem sabe a gente não se reencontra nesse quarteirão pequeno que é o mundo ;)?!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s