Aos colegas publicitários e a quem mais interessar

Depois que a Ju nasceu tive tempo para rever muitas coisas em minha vida, e a forma como vivi a profissão de publicitária, onde me formei atuando, é uma das questões revistas. Escrevi esse texto há alguns meses e algumas pessoas já leram. E hoje, por vários motivos, deu vontade de falar com mais gente. Vontade de, com minha mea culpa, tentar alertar outros que possam estar fazendo como fiz. Para que corram, que mudem agora, antes que a vida lhes passe uma rasteira maluca e não lhes dê tempo de tentar fazer diferente, de fazer melhor, mais leve, mais feliz. Fico aliviada que esse tempo para mim ainda é recuperável. Que uma maior consciência, mesmo que tardia, tenha aflorado.

Bjujus a todos! E muito obrigada pela atenção.

“Sabe aqueles dias em que a gente não tem feito outra coisa se não pensar na vida? Ou sei lá, pensa na vida porque não anda tendo muitas outras coisas pra pensar?

Com todos que trabalharam comigo, por curtos ou longos espaços de tempo, eu gostaria de compartilhar algumas coisas que ando pensando.

O convívio das pessoas no espaço de trabalho de uma agência de propaganda é muito, muito intenso. Os sentimentos de realização profissional nessa área nascem de processos nos quais mergulhamos muito fundo, nos envolvemos em um longo caminho e com muitos profissionais para finalmente sentirmos o alívio do trabalho bem cumprido ao ver a peça veiculada e funcionando ao que se propõe ao cliente. São valores intangíveis que vendemos, são idéias, soluções que nascem de trabalho intelectual suado, seja de pesquisa, seja de cálculo, seja de criação, seja de acompanhamento de execução. Não é produto, troca, toma-lá-dá-cá. É muita criatividade, transpiração, comunicação, pertinência, relevância, estética, comemoração, frustração, aprovação, refação, prazos apertados, correções, acertos, erros, palpites, nossa! Quanta coisa entra nessa relação. E atrás dessa relação de trabalho, existe a relação pessoal estabelecida e vivida, que de acordo com temperamento, postura, bagagem de vida, crenças e sonhos de cada um e como esse um utiliza isso no trato com os colegas de trabalho, pode facilitar ou fazer tudo ser mais difícil do que é.

Demorei muito para entender isso, e hoje, gostaria de ter aberto antes meus ouvidos, mente e coração para algumas coisas, que teriam feito minha vida muito mais leve, fácil, feliz, produtiva e tranqüila na área profissional da propaganda. Coisas que teriam feito meu convívio com muitos de vocês colegas, muito, mas muito melhor.

Gostaria de ter entendido antes que na área criativa existe respiro, tempo, a necessidade do branco. O espaço criativo precisa de respiro, se não corre o risco de não ser compreendido, de sair cheio de ruídos, de ferir os olhos, de cansar, de doer. Não é linha de produção ininterrupta, não é sanduíche ruim feito de carne e pão congelados.

Gostaria de ter entendido antes que a sexta-feira é feita pra encerrar a semana. Trabalho bem feito, fechamento das contas, encerramento dos ciclos, limpeza das áreas virtuais e reais de trabalho para a nova semana que se iniciará na segunda começar arejada, limpa, leve. Sexta é para terminar muito direitinho os ciclos iniciados, e não pegar o briefing do próximo job da lousinha as 4:30 da tarde, para já “ir adiantando” as coisas. A sexta é para ir almoçar com os colegas, para ir para casa na hora certa, pra começar as 6:30 da tarde a descansar as idéias, pra curtir o happy your, pra celebrar a amizade, que torna a vida mais fácil de se levar.

Gostaria de ter entendido antes que ritmo é algo pessoal, intransferível, individual e que graças ao papai do céu não somos máquinas prontas a serem startadas a um simples toque de dedos.

Gostaria de ter entendido antes que o respeito incondicional ao que o outro julga importante e ao que outro adota como forma de conduzir seus caminhos é algo essencial ao bom convívio, mesmo que você discorde dele. Cabe a mim, respeitar, conviver, aceitar, não julgar, não criticar, não condenar, não ser tão rígida em minhas atitudes e opiniões. Gostaria de ter sido mais flexível em minhas posturas e não cobrar tanto, o tempo todo, seja de mim mesma, seja dos que me rodeavam.

Gostaria de ter entendido que nossos humores, rumores, amores e desamores internos podem se fazer externos sim, mas com cuidado, em baixo tom, respeitando profundamente o espaço olheio, o outro, o pequeno universo pulsante ao redor. Explosões são coisas de vulcões, que rompem limites e interferem nos espaços alheios, destruindo, bagunçando, desconcentrando, desconcertando. Longos silêncios também provocam as vezes os mesmos estragos que os vulcões. Gostaria de ter tido mais calma, mais tranqüilidade em lidar e reagir frente ao que o mundo ao meu redor me trazia.

Gostaria de ter entendido antes que dá pra ser leve sem ser fútil, que dá pra ser sério sem ser sisudo, que dá pra falar besteira sem ser bobo, que dá pra relaxar sem ser preguiçoso, que dá pra ser um bom profissional sem ser máquina de produzir, principalmente numa área tão delicada como a criativa.

Criatividade é algo fluido, leve, gostoso, bom de se viver, de se materializar. Não é pesado, difícil, sofrido. É um privilégio ser capaz de viver de idéias, de conseguir fazer delas meio de vida. Aos colegas diretores de arte, minha admiração por apesar de toda a carga exigida que se carregue, que vcs continuem firmes aí, e de bem com a vida, mesmo com toda a transpiração que isso exige. Diretor de arte garoto-enxaqueca só conheci um, eu mesma. Quando eu crescer quero ser como vocês.

Colegas todos, não vou ficar revisando e relendo esse texto, se não vou protelar, guarda-lo numa pasta escondida no computador e não vou ter coragem de postar. Ah, e além disso, Juju acabou de acordar lá em cima no berço.

Muitas saudades dessa loucura toda que é a vida na agência, muitas saudades de vocês e do convívio com vocês. Para mim foi preciso o distanciamento para eu entender algumas coisas. Não resisti e as trago aqui, agora.

Inté logo, espero encontrá-los logo pelas esquinas da vida!

Juliana.”

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